Em 17/09/2026, a Instituição Fiscal Independente (IFI/Senado) divulgou o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) nº 116, projetando para 2027 um déficit primário de R$ 86,1 bilhões (0,6% do PIB) — em rota oposta ao superávit de R$ 18,6 bilhões previsto no PLOA 2027. O documento reforça que os juros altos são sustentados pela posição fiscal do país, não apenas pela política monetária.
Fonte: Instituição Fiscal Independente (IFI) — Senado Federal, Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 116, de 17/09/2026. Natureza: relatório técnico independente de acompanhamento fiscal — projeções e análise, sem efeito normativo. Status: documento oficial já publicado; as divergências apontadas referem-se ao PLOA 2027, que segue em tramitação no Congresso (ainda não aprovado).
A IFI é o órgão técnico independente do Senado que acompanha as contas públicas. No RAF nº 116, sua projeção de resultado primário para 2027 diverge de forma expressiva do que consta no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA): enquanto o governo estima superávit de R$ 18,6 bilhões, a IFI projeta déficit de R$ 86,1 bilhões — uma diferença de R$ 104,8 bilhões. Para chegar sequer ao limite inferior da meta fiscal de 2027 (R$ 36,6 bilhões, ou 0,25% do PIB), seria necessário, segundo a instituição, um contingenciamento da ordem de R$ 35,7 bilhões.
O relatório também aponta rigidez orçamentária crescente: as despesas obrigatórias sobem cerca de R$ 131,4 bilhões entre 2026 e 2027, comprimindo o espaço para despesas discricionárias e investimentos. A dívida bruta (DBGG) rondava 82,5% do PIB em julho de 2026. O quadro comparativo abaixo resume as premissas para 2027.
| Variável (2027) | PLOA (governo) | IFI | Focus (mercado) |
|---|---|---|---|
| Resultado primário | +R$ 18,6 bi (0,1% PIB) | −R$ 86,1 bi (0,6% PIB) | — |
| PIB (crescimento real) | 2,5% | 1,8% | 1,5% |
| IPCA (% no ano) | 3,6% | 4,0% | 4,3% |
| Selic (fim de período, % a.a.) | 12,0% | 12,0% | 12,0% |
Meta fiscal de 2027: centro em R$ 73,2 bi (0,5% do PIB) e limite inferior em R$ 36,6 bi (0,25% do PIB). Pela projeção da IFI, o resultado ficaria em torno de R$ 0,9 bi — insuficiente para cumprir o limite inferior sem novo ajuste.
O ponto central para quem decide investimento e precificação é o diagnóstico da IFI de que a persistência de juros elevados não decorre só da política monetária: boa parte do prêmio de risco embutido nas taxas longas está associada à posição fiscal. Traduzindo para o caixa da empresa, isso significa crédito caro e custo de capital alto por mais tempo — mesmo com a Selic em trajetória de queda, o mercado projeta o juro básico ainda em 12% ao ano no fim de 2027.
Para a indústria e a distribuição de bebidas — capital-intensivas e dependentes de capital de giro e de financiamento de estoque e recebíveis —, o recado é que a taxa de desconto usada em estudos de viabilidade e valuation deve permanecer elevada, e que o custo financeiro continuará pesando na margem. A rigidez orçamentária e o risco de frustração de receitas reforçam a incerteza sobre a trajetória fiscal, mantendo a volatilidade do câmbio e das taxas.
Lemos o RAF nº 116 como um alerta de que o alívio nos juros tende a ser gradual e condicionado ao ajuste fiscal, e não uma queda rápida do custo do dinheiro. A divergência entre PLOA e IFI (R$ 104,8 bi) mostra que a hipótese de superávit do governo é otimista na visão da instituição — e que contingenciamentos ao longo de 2027 são um cenário plausível, com efeito sobre a atividade e a demanda.
Recomendação da Conceito: (i) manter a taxa de desconto de projetos e valuations em patamar consistente com Selic ainda alta (~12% em 2027), evitando superestimar valor presente; (ii) alongar e diversificar a estrutura de endividamento, com atenção a linhas atreladas ao CDI, e priorizar geração de caixa próprio; (iii) reforçar o planejamento de capital de giro e o controle de prazos médios (estoque, recebíveis, pagamentos) num ambiente de crédito caro; e (iv) trabalhar com cenários alternativos (base, fiscal deteriorado e fiscal favorável), tratando as projeções da IFI como o lado mais conservador do intervalo.