A semana de 18 a 21 de agosto de 2026 inverteu o sinal do câmbio que vinha pressionando o custo do setor de bebidas. Depois de cinco altas seguidas que levaram o dólar comercial a R$ 5,22 em 14/08, a moeda americana recuou e fechou 21/08 a R$ 5,14, queda de 1,53% no acumulado da semana. Foi o primeiro alívio relevante do trimestre na parcela dolarizada do custo — resina PET, ácido cítrico e alumínio. Ao mesmo tempo, o maior insumo doméstico, o açúcar, disparou, e o Congresso manteve em rota de sanção o projeto que reduz tributos sobre combustíveis.
O movimento de reversão foi puxado por dois fatores. No exterior, o dólar perdeu força de forma generalizada frente às principais moedas. No plano interno, o mercado passou a monitorar o calendário eleitoral, com a campanha oficial iniciada em 16/08. O resultado prático para o setor é imediato: cada centavo de recuo do dólar barateia a reposição de insumos importados, que representam parcela relevante do custo variável de um refrigerante — da resina da garrafa ao acidulante.
O alívio, porém, chega em um patamar ainda alto. Mesmo após a queda, R$ 5,14 é um nível elevado para o histórico recente, e a volatilidade tende a se manter enquanto o cenário eleitoral não se define. Para a gestão de compras, a leitura é de janela tática — não de mudança estrutural de tendência.
A taxa Selic segue em 14,00% ao ano. A ata da última reunião do Copom foi explícita ao registrar que expectativas de inflação ainda desancoradas exigem política monetária restritiva por mais tempo, e não sinalizou trajetória de queda para as próximas decisões. A próxima reunião ocorre em 15 e 16 de setembro. Na prática, o setor entra no período de formação do estoque de verão — o pico de demanda do ano — com custo de capital de giro ainda no topo. Antecipar produção e comprar insumos no vale de preço custa caro em juros; adiar expõe a ruptura na alta temporada. É uma decisão financeira tão relevante quanto a comercial.
No Congresso, o PLP 114/2026, aprovado pelo Senado em 12/08 por ampla maioria, seguiu para sanção presidencial — status mantido ao longo do ciclo. O texto reduz PIS, Cofins e Cide sobre combustíveis, com efeito direto sobre o custo de frete, uma das maiores linhas de despesa logística do setor, e altera dois artigos da LC 214/2025, a lei da reforma tributária. Com a campanha eleitoral em curso desde 16/08, a capacidade de deliberação plena do Congresso fica reduzida até outubro.
A variável ainda sem definição é a alíquota do Imposto Seletivo sobre bebidas açucaradas. Após a retirada do teto de 2% na regulamentação, cabe ao Executivo enviar projeto com os percentuais, que precisam vigorar até 3 de outubro para valer já em 2027, primeiro ano de cobrança. É o principal item de custo tributário ainda em aberto para a projeção de 2027.
| Indicador | Leitura | Variação | Referência |
|---|---|---|---|
| Dólar comercial | R$ 5,14 | -1,53% na semana | Fechamento 21/08/2026 |
| Selic (Copom) | 14,00% a.a. | mantida | Próxima decisão 15-16/09 |
| IPCA — 12 meses | 4,44% | +0,07% no mês | Julho/2026 · IBGE 11/08 |
| Açúcar cristal CEPEA | R$ 104,37/sc 50kg | +6,6% na semana | Fechamento 21/08/2026 |
O ciclo troca a tesoura de margem por um jogo de compensações. A queda do dólar abre uma janela tática para reposição de importados — vale travar parte da necessidade de PET e acidulante enquanto o câmbio recua. Mas o benefício é parcialmente anulado pela disparada do açúcar, o maior item doméstico, e pelo juro em 14%, que penaliza qualquer antecipação de estoque.
A recomendação prática é separar as duas decisões: comprar câmbio (importados) na janela de alívio e escalonar açúcar (doméstico) para diluir o pico de preço, sem imobilizar caixa caro. Na frente tributária, o Imposto Seletivo continua sendo a maior incógnita de 2027 — quem já modelar cenários de alíquota agora chega à virada com preço e margem calibrados.