A prévia da inflação recuou em agosto e desacelerou para 4,24% em 12 meses. Em paralelo, o câmbio reverteu para alta (R$ 5,1965), a Selic segue em 14% e o Imposto Seletivo caminha para MP em setembro.
Painel de conjuntura — IPCA-15 de agosto/2026 (IBGE), Selic (Copom/BCB), dólar comercial (fechamento de 28/08/2026) e acompanhamento legislativo do Imposto Seletivo.
O IPCA-15 de agosto recuou 0,40%, a maior surpresa de alívio do ano e um giro de dinâmica em relação ao avanço de 0,06% de julho. No acumulado de 12 meses, a prévia desacelerou de 4,52% para 4,24%; no ano, soma 3,09%. O resultado foi puxado por quedas em Habitação (-1,41%), Transportes (-1,00%) e Alimentação e bebidas (-0,57%) — os três grupos que mais pesam no orçamento das famílias e, portanto, no poder de compra que abastece a prateleira de bebidas na largada do verão.
Para o setor, a deflação tem duas faces. Do lado da demanda, inflação menor preserva renda real e favorece o consumo sazonal. Do lado da formação de preço, o alívio reduz o espaço de repasse: com índice cedendo, qualquer reajuste destoa mais do ambiente e fica mais visível ao varejo e ao consumidor.
Depois de ceder na semana anterior, o câmbio voltou a subir. Na sexta-feira, 28/08, o dólar fechou a R$ 5,1965 (+0,67% no dia), com alta de cerca de 1% na semana, e chegou a tocar R$ 5,2308 no intradia. O movimento veio de fora: a mudança nas apostas para a trajetória de juros dos Estados Unidos elevou a cautela e reonerou a moeda. É o inverso do ciclo passado, quando o real havia se valorizado — e reonera justamente a parcela importada do custo do refrigerante: resina PET, ácido cítrico e alumínio.
A taxa Selic segue em 14,00% ao ano, após a última decisão do Copom. A próxima reunião ocorre em 15 e 16 de setembro, e o comunicado mais recente não cravou sequência de cortes — os próximos passos dependem da evolução dos dados, com atenção aos riscos fiscais ligados ao calendário eleitoral e aos riscos cambiais do ambiente externo. Na prática, o juro em dois dígitos altos mantém caro o capital de giro exatamente no momento de formar estoque para a alta temporada.
No campo legislativo, o ciclo teve dois marcos. O primeiro é a sanção da Lei Complementar nº 235/2026 (conversão do PLP 114/2026), publicada no DOU de 28/08/2026: o texto trata de renúncias de receita e reduz tributos federais sobre combustíveis diante do choque de energia. Não incide sobre bebidas, mas alcança o setor pela via do custo de transporte — frete é componente relevante na distribuição de bebidas frias, e a AFABBRA já havia sinalizado o acompanhamento pelo efeito sobre a cadeia de insumos.
O segundo é o desenho do Imposto Seletivo: com o PLOA 2027 enviado ao Congresso em 31/08, o governo deve editar em setembro a Medida Provisória com as alíquotas de 2027. Para bebidas açucaradas, a sinalização é de alíquota escalonada, espelhando o IPI em 2027 e incorporando o diferencial de ICMS de forma progressiva até 2033. É a variável de custo que o setor precisa monitorar de perto no fechamento do orçamento do próximo ano.
As três pontas do custo se moveram no mesmo ciclo, e não na mesma direção. A inflação cedeu (bom para a renda, ruim para o repasse), o dólar voltou a subir (reonera o importado) e o açúcar bateu recorde (comprime o insumo doméstico). A Selic em 14% segura o giro. O resultado é uma geometria de custo instável, que muda de sinal a cada semana e não perdoa política de preço engessada.
A recomendação é separar as frentes: aproveitar a deflação para segurar reajuste amplo — que ficaria muito visível — e agir de forma cirúrgica por SKU, defendendo margem onde o insumo pesa mais (açúcar) e capturando eficiência onde o câmbio ainda permite (importados, com hedge tático). E manter o Imposto Seletivo como a maior incógnita estrutural de 2027, já embutida no planejamento.